quinta-feira, 14 de abril de 2011

A PÁSCOA DE QUE TODOS NECESSITAMOS

Sabemos que, durante longas décadas e até séculos, os cristãos celebravam apenas ou sobretudo a festa da Páscoa. Por ser considerado o acontecimento central e fundante da fé da Igreja, os cristãos comemoravam e reviviam os acontecimentos da paixão-morte e ressurreição de Jesus reconhecendo-se no mesmo destino do seu Mestre. Com o tempo, outras datas e festividades, como o natal, foram preenchendo o calendário cristão que paulatinamente foi substituindo o ciclo anual das festas e divindades pagãs. De qualquer modo, a Páscoa assumiu sempre um significado especial na vida dos cristãos de ontem e de hoje. Assim é também entre nós, mas muita coisa vai mudando, à medida e conforme a maior ou menor presença da influência da Igreja. É notório, por exemplo, que o Natal, como celebração e vivência popular generalizada, se tem sobreposto à vivência da Páscoa. Tal inversão tem, contudo, mais a ver com um menor vinculo com a fé e as Igrejas do que com uma consciência do verdadeiro significado do Natal cristão. Quanto à festa da Páscoa, esta não está tão sujeita a tal desgaste. Se o natal é a festa da família, a Pascoa é a festa da Igreja e continua, por isso, mais sob o controlo pastoral e normativo da Igreja. Mas já o foi mais. Se, para um cristão comprometido, não há domingo sem missa, nem Páscoa sem “desobriga” (confissão) e missa de Domingo Pascal, em muitos casos e sobretudo nas cidades, têm-se vindo a perder alguns das vivências litúrgicas e populares da Páscoa. Se nas aldeias e cidades do Minho ainda se celebra a Páscoa na rua com foguetes, flores e folares a acolher o Compasso (Cristo Ressuscitado que anda de casa em casa a abençoar os lares), noutras partes do país o entusiasmo popular não vai muito além das amêndoas e do pão de ló. Se os pregadores e lideres eclesiásticos continuam a recordar que a Páscoa é “passagem” para uma vida nova, e colocam o acento na morte-ressurreição celebrada na Vigília de Sábado para Domingo, facto é que muitas Igrejas se enchem mais nas sexta Feira santa e não trocam pelo “lume novo” do círio pascal o teatro das via-sacras dolorosas e procissões dos Passos que se vão renovando, cada vez mais, “para turista ver”. Sempre existiu e continuará a perdurar esta discrepância entre a teologia ou orientação dos pastores e a vivência popular dos “mistérios”. Os teólogos e as Igrejas foram sempre mais influenciados pelas crenças e práticas populares que o contrário. A teologia afirma: “o Natal sucedeu num dia de de uma vez por todas”; o nosso povo diz: “Natal é todos os dias”. A Igreja ensina: “A Páscoa é quando Deus quiser e é, por isso, todos os dias”; o povo diz: “O natal é quando o homem quiser” e “a Páscoa, como a desobriga, é uma vez ao ano”. O Natal começa nas nossas cidades cada vez mais cedo, a Igreja ensina que a Páscoa se prolonga por 50 dias e por todos os domingos do ano. Mas para a maioria ela acaba cada vez mais cedo, ou nem chega a começar...  Esta discrepância verifica-se também ao nível das tradições e modos de celebrar, muitas vezes à margem da orientação da hierarquia. Há regiões do Alentejo em que continua a celebrar-se a Páscoa sem padre nem bispo: À maneira dos antigos judeus o povo acampa à beira rio, comendo o cordeiro, à espera da “Passagem”. Em muitas aldeias do nosso país mantêm-se formas de dramatização da Paixão de Jesus, onde o corpo social se revê e renova: aí Judas continua a ser mesmo o traidor, merecedor de estoirar como um foguete por ter vendido Cristo por 30 moedas; Aí Pilatos continua a lavar as mãos como tantos de nós; Aí Barrabás continua a ser posto em liberdade para que o “justo pague pelo pecador”; aí as “Senhora das Dores” e as mulheres continuam a chorar lágrimas a que se associam tantas mulheres e mães do mundo; aí Cireneu e Verónica continuam a representar o lado bom da humanidade solidária com o seu próximo. Por tudo isto e muito mais, o drama da Páscoa continua a tocar o coração do nosso povo: É que todos nos revemos nesta urgência de “passagem” da morte à vida; da crise à esperança; da dor sem sentido ao amor com seus espinhos. Facto é que, na paixão de Cristo os homens de hoje continuam a ver a sua paixão e as paixões do mundo sofredor sedento de redenção. Nela todos continuarmos a aprender a grande lição da Cruz, assim expressa por S. Francisco de Assis: “é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a Vida Plena”
(Texto publicado no jornal I).
                                                                                        Isidro Lamelas

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